Nunca foram juntos ao cinema. Definitivamente o amor deles dois não era do tipo institucionalizado, estava mais para um happening. Não é que eles achassem que não fosse durar, mas a vida deles era cheia de agito. Havia também doçura e companheirismo, mas o cotidiano beirava um filme Junkie com cenas de sexo no banheiro, muitos cigarros e dois caras acordando todas as manhãs com os cabelos compridos embaraçando-se. A idealização mais adolescente e mais gostosa do amor. Eram sempre duas canecas de café, dois pães, duas tortas, dois cigarros, duas baforadas, um trançar de pernas e braços feito um polvo mergulhado no oceano que era aquela cama, um balé de corpos magnetizados movendo-se em busca de paralelos perfeitos todas as noites num teatro abandonado, uma viagem multidimensional na terra dos sonhos mais bonitos. Um delicioso não ter o que fazer. Matavam as aulas sem procurar perdas ou danos. Brigas tolas com egos mortalmente feridos quando, num piscar de olhos, as palavras duras eram dissolvidas em copos de cerveja (nem sempre). Eram as pessoas ideais, um pro outro, pra viver todos os clichês amorosos. Tinham segurança total neles dois pra perder completamente a dignidade. Eram amantes, acima de tudo. Pra um dos dois cabeludos, o outro cabeludo era, muitas vezes, como um irmão mais novo que emprestava uma grana pro cigarro; alguém que lhe fez criar coragem de usar calças extremamente apertadas; alguém rodeado de segredos, era uma loucura pertinente, permitida. Inevitavelmente a primavera aconteceu e fugazmente um sol brilhou. Eu apago a luz, às vezes, penso naqueles dois e me pergunto por onde eles andarão.
Final alternativo: Eu, às vezes, apago a luz, fecho os olhos e apenas durmo.
Maledicente
Todas as coisas ditas são mal ditas.
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
As ondas
Não há nada latente, apenas ondas paradisíacas de sol nos cabelos. Sobre as ramagens dos olhos úmidos o frescor das primeiras gotas de um amanhecer tácito. No percurso da boca corre um rio de palavras macias... mornas... matinais... com o cheiro da brisa do mar e o som do canto das sereias ressoando em conchas alvas que te levam a mergulhar cada vez mais fundo até o limite de onde tudo é impulsionado.
Um lugar protegido por tigres indomados e pássaros sagazes; de onde surgem as contrações que produzem as ondas na beira da praia: a mãe das marés dos nossos sentimentos. Há de se mergulhar fundo entre as pedras e encarar os corais do medo de achar-se um pouco perdido. Cavuncar com as prórprias mãos a lama que asfixia os nossos pulmões e queima os nossos olhos para no fim descobrirmos que há um enigma indecifrável, mas, ainda assim, ficar admirado com a força que jorra e impulsiona as ondas de enxaguar toda a praia com àguas coadas pela areia, àguas tão límpidas que fazem chorar os olhos embebidos em silêncio.
- Assim como não se vê parte da lua, fica obscura uma banda dos nossos corações: baú que guarda saudades (saudade de uma casa envelhecida pelo salitre, de um quintal onde há um pé de maracujá, de guarda-chuvas, das tuas costas, tuas mãos pequenas e ásperas) rios que constantemente derramam dentro de nós. Nossos medos habitam este lugar, nossas madrugadas insones habitam esta casa. Aí está o quarto onde os adultos nos punham e puniam, de onde só saíamos quando tínhamos consciência do porquê de estar ali.
Os mergulhos vão e vem como um ciclo de ondas: haverá momentos de sentar com a solitude, ou com a solidão, ao nosso lado e haverá momentos de cantar a plenos pulmões: Non, je ne regrette rien.
Um lugar protegido por tigres indomados e pássaros sagazes; de onde surgem as contrações que produzem as ondas na beira da praia: a mãe das marés dos nossos sentimentos. Há de se mergulhar fundo entre as pedras e encarar os corais do medo de achar-se um pouco perdido. Cavuncar com as prórprias mãos a lama que asfixia os nossos pulmões e queima os nossos olhos para no fim descobrirmos que há um enigma indecifrável, mas, ainda assim, ficar admirado com a força que jorra e impulsiona as ondas de enxaguar toda a praia com àguas coadas pela areia, àguas tão límpidas que fazem chorar os olhos embebidos em silêncio.
- Assim como não se vê parte da lua, fica obscura uma banda dos nossos corações: baú que guarda saudades (saudade de uma casa envelhecida pelo salitre, de um quintal onde há um pé de maracujá, de guarda-chuvas, das tuas costas, tuas mãos pequenas e ásperas) rios que constantemente derramam dentro de nós. Nossos medos habitam este lugar, nossas madrugadas insones habitam esta casa. Aí está o quarto onde os adultos nos punham e puniam, de onde só saíamos quando tínhamos consciência do porquê de estar ali.
Os mergulhos vão e vem como um ciclo de ondas: haverá momentos de sentar com a solitude, ou com a solidão, ao nosso lado e haverá momentos de cantar a plenos pulmões: Non, je ne regrette rien.
quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
Vida.
És homem quando fala da morte: raiz do teu viver na cova funda disso (Diga-me dos lugares lindos da sua mente, fale com esses olhos de açúcar.)
És menino quando dizes aquelas coisas sujas do meio audacioso das tuas pernas; teu orgulhoso caminhar vadio, tuas preocupações com o futuro...
És como um Golias ao dizer, a mim, homem feito, palavras de comando numa voz semitonada e, ao mesmo tempo, implorar com os olhos o afago da placenta de um oceano inteiro.
Sabes que não há o que temer, pois os dias e as noites foram feitos para embalar teu dorso de homem e o teu coração de menino.
És menino quando dizes aquelas coisas sujas do meio audacioso das tuas pernas; teu orgulhoso caminhar vadio, tuas preocupações com o futuro...
És como um Golias ao dizer, a mim, homem feito, palavras de comando numa voz semitonada e, ao mesmo tempo, implorar com os olhos o afago da placenta de um oceano inteiro.
Sabes que não há o que temer, pois os dias e as noites foram feitos para embalar teu dorso de homem e o teu coração de menino.
sábado, 26 de novembro de 2011
Recolhido num quarto coberto de fumaça, escrevendo poemas e cartas, tentando enxergar através da cortina nebulosa, indo ao seu próprio encontro e afundado em sentimentos confusos. Escreveu a carta de próprio punho, assinando: F.F. O envelope lacrado foi entregue secretamente durante a hora mais escura da noite.
E chovia uma chuva tamanha que o solo evaporava naquela cidade insuportavelmente quente.
Sofria de uma atordoante paixão, era hipnotizado por qualquer movimento súbito do seu amor, devotado e vitorioso, assim havia de ser: um homem sem identidade, um sujeito inexistente, oculto - belo fenômeno natural. Ensolarou. Choveu. Trovejou. Secou.
Amou e não parecia um filme como aparenta ser agora na memória, e como, quando, as palavras tentam ludibriar a realidade. Parece completamente ficcional o amor, mas ainda assim tão vivo e tão real. Tudo parece ter acontecido do modo como a lembrança manifesta: bonito e alegre e triste, convencional e unicamente experimentado em segredo; um fogo que selou a imagem do seu amado no fundo dos seus olhos.
E chovia uma chuva tamanha que o solo evaporava naquela cidade insuportavelmente quente.
Sofria de uma atordoante paixão, era hipnotizado por qualquer movimento súbito do seu amor, devotado e vitorioso, assim havia de ser: um homem sem identidade, um sujeito inexistente, oculto - belo fenômeno natural. Ensolarou. Choveu. Trovejou. Secou.
Amou e não parecia um filme como aparenta ser agora na memória, e como, quando, as palavras tentam ludibriar a realidade. Parece completamente ficcional o amor, mas ainda assim tão vivo e tão real. Tudo parece ter acontecido do modo como a lembrança manifesta: bonito e alegre e triste, convencional e unicamente experimentado em segredo; um fogo que selou a imagem do seu amado no fundo dos seus olhos.
quinta-feira, 17 de novembro de 2011
Placentário
Soluções práticas de vida levam ás decisões mais drásticas, conclusões erráticas, manuais de não viver. Tropeços em labirintos cegos, mordidas infecciosas da mandíbula tóxica da boca do mundo desses homens vis e seus mimetismos em florestas de concreto. Amar é preciso! Cuidar-se como a um sol: levar-se de mãos dadas pelo caminho de casa protegendo o peito da chuva ácida, aquecendo-o com uma xícara de chá de rosas mornas; vivendo, embora o peito esteja espremido e revirado ao avesso. Terra, seja a mãe dos que sofrem sozinhos e amputados, só por uma noite, nessa guerra obscura do ser. Somos filhos de uma terra onírica, filhos da luz violeta, filhos das amendoeiras, dos pardais, dos rios, da chuva verde. Que o mar nos envolva em seu manto retornando-nos à placenta da Terra.
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
Chuva Verde
Quando sair na chuva tenha cuidado com tudo: cuidado com o cheiro de terra molhada fazendo recobrar memórias de infância do fundo aconchegante de um colo materno; cuidado com as mãos encharcadas de água da chuva deixando os dedos enrugados como repolhos da horta das trincheiras verdes numa linha brutal da vida! Se atente para não resfriar de um amor roxo quando a chuva escorrer delicadamente pelo seu rosto; tenha muito cuidado principalmente com o som que a chuva faz e com os seus contornos te puxando feito uma correnteza viva. Cuidado, mas muito cuidado mesmo! Você pode se dar conta dos poços da sua alma enquanto a chuva te lava por inteiro.
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