domingo, 2 de outubro de 2011

Desatando-nos

O corte não se faz
sem morrer de vagar
por um túnel no fim
do fim de outro túnel

É a agonia de quem correu
Não para encontrar
Mas porque encontrou
A cadência da vida

Mas agora os ponteiros foram amputados
Tornando o tempo tão palpável
Quanto a camisa que eu visto todos os dias
Sem gravatas e sem nós

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Novas passadas com o intuito de cambiar o lirismo num chão mais duro, uma entrada nos sertões do Brasil. É pé no solo seco-rachado. A fonte se petrificando, virando caverna escura, úmida, forrada em seu teto por estalactites.
Caminho para encontrar a lucidez do fiifó frente ao olhar do artesão que remenda os tecidos rotos e olha pela janela da sua casa o mar aberto que cobre a sua cabeça. Homem calejado pela vida, alma de artista, olhar perdido, amores cactos.
A difícil e sábia decisão de sentir a vida.

domingo, 18 de setembro de 2011

Homo verticales

É céu de um dia de praia
No engarrafamento
Os raios de sol tocam a retina
E subtamente eu os sinto, com clareza,
Iluminar o abismo que há dentro de mim.

Palavras esquecidas

O meu toque não te toca mais
As palavras não te encontram mais
Minha pele já não sorve a trama da sua

Meu desejo não te encanta mais
Meus demônios tolices demais
Você vagamente vê os ponteiros se partirem

O meu tempo é estreito demais
Meu sorriso triste demais
Me sustento numa rocha a se esvair feito pó

O meu céu é escuro demais
Meu quintal revolvido demais
As estrelam cairam todas de uma vez

Eu não tenho parede nem cais
Eu não lembro, mas lembro demais
Eu não vivo, não digo e sei
Você nunca saberá o quanto.
Contra você não contra o rio
Contam lá fora que o seu bote
Navega sozinho
O vento canta uma outra pedra:
Ele diz da foz que você mudou,
Suas pedras de erguer paredes
E não caminhos.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Obcecado pelo reflexo do seu próprio rosto no vidro da cristaleira, ele percebia um novo contorno ao redor dos seus olhos. Um brilho fosco, duas taças amendoadas prontas para o brinde. Sentia com muita propriedade ser quem era e de uma maneira delicada. Sentia-se pleno. Vagava pela casa sem ter nada com que se preocupar. Abriu a porta e saiu.

Queria caminhar com muita calma - Eis um belo exemplo de alguém que está pronto para promover sua libertação: caminhar com um motivo ausente, na presença, apenas, de Deus. Na presença de todo mundo, Todomundo é deus - Tudo no mundo funciona com uma lógica tal, na mente de quem sai para andar, de quem procura expandir. Se ele fosse sem parar se quer para beber algo, será que chegaria muito longe? Em todo caso, ele não se fazia jamais essa sorte de perguntas. Como eu disse: a ideia era apenas andar e provavelmente irá parar para se abastecer, caso precise.

Ele se deu conta de que o seu andar deixa pegadas. Observação mais banal! Pensando dessa forma parecia que eram seus primeiros passos deixados no caminho, como se na sua vida toda, antes desse momento, locomovera-se sempre engatinhando como um bebê deixando tão somente rastros e um rastro é apenas um rastro, uma pegada é uma marca, uma inscrição.

Sim, havia marcas dos seus pés no chão. Cada uma delas feita de forma única, fixada pelo peso do seu corpo. Se pudesse voar se livraria delas, e poderia ver suas pegadas misturadas às de todos os outros lá do alto. Depois se deu conta de que não havia mal nenhum em deixar-se registrar no bojo da terra, na gênese de tudo. Logo virá a chuva, logo vem o vento. Isso lhe fará ver que os nossos descaminhos nunca são caminhos de volta, nossos descaminhos não passam de ciladas.