O amor é árvore viçosa e firme no chão do
deserto? Ou vento que chove e duna um mar de areias secas? O que tive de
minha mãe era forte e frutífero como a seiva do seu peito, o sisal do seu
ventre e o jenipapeiro no cerrado do seu abraço. O que tive desse cabra era
disperso, pronto para voar sobre açudes, correr a galope o vento barroso na
anunciação da estiagem. (...) O amor é água e é barro; vento para secar o barro
e a água para molhar o barro; barro para encher de água e acalmar a sede; água
para ficar de pé e caminhar por um chão, um chão de barro, um chão de recomeço
passado do pai até o filho; é um silencioso e infinito sertão visto pelas
frestas de uma meditativa porteira.
sexta-feira, 23 de novembro de 2012
terça-feira, 20 de novembro de 2012
Like a Rolling Stone
Se não houver um livramento eficaz desse invólucro
ao redor de mim; das marcas, das manchas e dos sinais
Se é utópico ter uma vida contrária a predestinações
Se for impossível lutar contra uma avalanche de vontades,
vou continuar o movimento individual que se acumula desde o íntimo
lutando e rolando morro abaixo like a rolling stone.
sábado, 17 de novembro de 2012
Sem saber que me confesso completamente seu
amigo quando rimos; sou mais homem, mais menino, correndo
na highway numa alegria explícita que eu velo de cuidados para não deixar a pureza se perder no vício de uma ilusão qualquer, tentando prolongar a felicidade e a sorte de momentos
em que duas pessoas apenas se transmutam.
Banho translúcido
Tanto querer que o rio retroceda
Quanto temer a cheia furiosa das suas águas
Fará desembocar numa vida de renuncia
É como morrer sedento todos os dias num oásis
Mas a água potável me lava por inteiro
E descama as marcas e a história em mim
Como se lapidasse uma pedra devagar e silenciosamente
Até que se desfaça toda gruta, toda casa, toda casca...
Mas a água potável me lava por inteiro
E descama as marcas e a história em mim
Como se lapidasse uma pedra devagar e silenciosamente
Até que se desfaça toda gruta, toda casa, toda casca...
quinta-feira, 25 de outubro de 2012
Harmônicos para você dormir
No labirinto da sua casa eu sentia o meu desejo implodir em todos os cômodos. O medo inútil de revelar tamanha atração deu a minha voz um timbre demente, fruto de um som levado por uma respiração entrecortada como flash backs indesejáveis de um pesadelo bizarro: Eu quis lhe beijar. Ao mesmo tempo, eu tinha júbilos de satisfação pueril ao saber o quanto ele pode ser tão bom com essa tristeza calma no coração; e na sua alegria delirante e única de dançar displicentemente na copa-cozinha. Eu até me peguei olhando os seus olhos rasgados querendo me apaixonar, hora indo para cima deles, hora dissimulando tanto desejo. Já agora, a dor que me causou o seu não frente a minha incontrolável vontade, não é mais de tanto pesar diante de tantas outras dores que carrego comigo. Em sonho, desejo intimamente que o mundo seja uma continuação da casa dele, e a vida; sempre uma extensão de noites como aquela em que eu tocava harmônicos enquanto ele dormia.
segunda-feira, 15 de outubro de 2012
Esmeralda, vermelho e amarelo-sol
Você entra e sai do seu carro-ônibus-taxi, você entra e sai dos mesmos bares e você acredita que esse lugar já é seu, mas você não conhece verdadeiramente esse lugar: até que a cadência de uma música já esquecida bata forte no seu peito; até que os beijos sejam vermelho-terra, fogo, ar e água; até que te levem para ver a sereia coroada numa rua, onde, no transpassar das suas calçadas de pedra seus pés te levarão com paciência.
Assim que se começa a conhecer esse lugar, assim que se tem samba de manhã cedinho, assim que se percebe o sabor do encontro do mar esmeralda com um rio vermelho pulsando vida.
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