No caso, aqui, ser retratada como um pedaço de bife fizesse dela uma pessoa muito mais querida, digna de alguma consideração. Infelizmente ela não era um pedaço de bife para merecer o
respeito desse garoto militante do greenpeace. Apesar de ela ser um leopardo, uma onça-de-cabo verde, era "de dia sou sua flor, de noite sou seu cavalo"; apesar disto, era um animal altivo e com habilidades, portanto não havia com que se preocupar, sempre se livraria bem das garras de predadores ou da caça de algum explorador sanguinolento (também a chamei de O leopardo, para que o seu sexo ficasse dúbio, pois sei que ela iria gostar assim, caso soubesse que alguém se importou em escrever sobre ela). Infelizmente, ou felizmente, ela tinha
uma alma anarquista e acreditava que não tinha o que ensinar a esse garoto de ideias, só lamentava o fato de não ser um mico leão-dourado, assim ela teria todas as suas atenções, a sombra do seu abraço e, principalmente, as suas palavras mais amenas. Mas essa garota em extinção só se alimenta de amor de verdade. Se ela sabe que o tempo é que faz a árvore crescer, a rosa aflorar, a tempestade silenciar, a menina ter um cheiro de mulher, há muito para se dizer? A verdade da natureza está sempre em equilíbrio, ou em busca do equilíbrio. As verdades que o garoto dizia a ela eram sempre para desequilibrar. Um tornado, por mais devastador que possa parecer, só se apresenta desta maneira trágica para os seres humanos, no entanto ele traz equilíbrio climático ao planeta. Em algum momento, e ela não sabe que culpa tinha nisto, tudo que o garoto proferia parecia um soco vulcânico sem nenhuma finalidade amorosa. Descuido? Claro. Descuidar é humano, contudo a natureza nunca é descuidada. Caso ela fosse aquele bife molinho, suculento e sangrando certamente haveria mais cuidados. Ela agora está em seu quarto ouvindo rock´n´roll no ultimo volume, se refestelando de hamburguers, pois o rock é o que mais se aproxima da vida, é um carro desgovernado que passa por cima de tudo e faz um estrago danado. Ela é feliz com suas dores, assim, vestindo peles de leopardo e acenando para seus amigos na praia. Aprendeu a ser seu próprio sol.
domingo, 17 de fevereiro de 2013
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013
Todo poema se escreve só
Eu vejo do alto, os meus sapatos equilibrando-se
Na linha do Equador
Na corda bamba que balança por causa do vento
De uma frente fria de palavras sem sol
Que ele costumava falar
Mas se até tenho paz, sol e pés
Eu estou no centro do ecoa a dor
E ninguém pode me ouvir
Estou no centro do mar
No centro da terra
Na linha do meio
Só me resta ir
Descalço e sem ver
Onde os pés irão me levar
Caminhando por qualquer descaminho.
Na corda bamba que balança por causa do vento
De uma frente fria de palavras sem sol
Que ele costumava falar
Mas se até tenho paz, sol e pés
Eu estou no centro do ecoa a dor
E ninguém pode me ouvir
Estou no centro do mar
No centro da terra
Na linha do meio
Só me resta ir
Descalço e sem ver
Onde os pés irão me levar
Caminhando por qualquer descaminho.
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013
Caracóis de sol sobre a cabeça
Eu estou sob o leme do meu coração
Um orgulho sincero de navegar
Farol lunar, horizonte magnético,
Amplitude nuclear pacificadora
Desnecessário tempestadiar
Adiar, odiar, quebrar
a corrente
Em bumerangues na hora da tormenta
Mas não me tente que eu viro raio,
Faço o céu desabar
Eu rebento
Não se exima da responsabilidade de cuidar
E cuidar muitas vezes é dizer
Cuidar muitas vezes é calar
sábado, 26 de janeiro de 2013
Pedagogia do pessimismo
Ele nunca foi otimista, infelizmente
nasceu com a percepção de que o ser humano é autodestrutivo desde a
essência da sua criação. Não creditava sua força e juventude nos ideais de
libertação do homem e dos outros animais uma vez que não tinha, verdadeiramente, paciência
para o discurso social, pois aprendeu a querer mergulhar nas pessoas e sempre
ajudou a mãe com o jantar e a louça por amor.
quarta-feira, 16 de janeiro de 2013
No calor dos quartos, nas salas fechadas, grita
em vermelho o meu lado mais bestial. Pouco me importa qualquer filosofia de uma
vida mais equilibrada. Eu quero cinquenta membros cortando a minha carne paralisada
para que depois dessa morte surjam palavras desconexas, para que eu desaprenda
qualquer coisa. Eu quero da maneira como faz um sádico, colocando uma mordaça no seu escravo para que ele perceba e valorize o prazer de respirar novamente.
"Um cafezinho morno, por favor” diz um homem de
terno cinza num posto de beira de estrada.
Por favor! Eu quero que uma rodovia enfurecida passe veloz por cima de
mim, pois sou fraco, sou bicho que precisa se encostar em cercas vivas
e sentir o ardor despertar do mastro espinhento que sustenta a bandeira retraída
do nosso país.
Eis uma história:
À noite ele acordava, lá pelos seus oito anos
de idade, o quarto muito quente e um palhaço de neon em cima do criado mudo. Seu
corpo ia desajeitado pela escuridão ameaçadora, coberto pelo algodão do pijama com estampas de super-heróis que
lhe prendia a circulação. O desconforto de ficar sozinho o levava à cama dos seus pais, a cama da sua concepção, e esta lhe acompanhou pelas noites como uma cruz sendo carregada pela via dolorosa. A cama da sua própria concepção sobre
a sua cabeça, tal qual uma coroa de espinhos. Morria todas as noites de braços abertos
com cravos entre suas mãos e pernas.
Mas voltando...
O calor dos lençóis, das roupas de baixo... me
livro de tudo, e ainda assim, é inútil lançar mão dessas coisas se não tocarmos fogo na nossa cama. Tem
que fazer no chão, no meio da sala, bem animalesco. Depois um cigarro. Depois as
delicias. Depois o véu: finalmente o amor desabrocha. Fazemos amor com essa calma. Alguma coisa sua cresce dentro de mim e volto como um homem melhor todas as vezes.
Agora está bem: boa noite e durmamos em paz.
Agora está bem: boa noite e durmamos em paz.
sábado, 29 de dezembro de 2012
Morrer, respirar...
Aprendendo a morrer todos os dias
neste silêncio; desta forma eu grito mais alto as minhas alegrias, eu as anseio com mais voracidade, eu vou resgatá-las no canal mais fundo onde eu possa encontrar o amor habitando uma zona rural em
noite de estrelas silenciosas. Do lado de fora as pessoas urbanas se divorciam delas mesmas
com seus ouvidos vedados pelos ruídos ácidos que corroem a possibilidade de perceber
como os sentimentos podem ressoar profundamente no íntimo. Eu não queria ter a
necessidade de explicar nada a ninguém com nenhuma palavra.No máximo, quero poucas palavras, e me exponho prontamente ao entristecimento e à decepção que vem do julgamento, ou do pré-julgamento... O mais importante é que, de imediato, proponho um recomeço; é assim que ajo secretamente para tentar entender você, é assim
que tento entender a mim mesmo, muito embora eu esteja ocupado com as filas, com as fichas, com
o horário que o trem irá passar, com o assaltante e a declaração do imposto de
renda. Quando recomeçamos nossa constante de reconhecermo-nos, eu e você, e eu
comigo mesmo, eu aprendo silenciosamente com todas as pessoas que habitam esta
floresta, nós conversamos em volta de uma fogueira numa noite enluarada e calma,
pois se você está dentro de mim é porque te amo de alguma forma. Conversas muito reais, ultimamente, tem me cansado e causado irritabilidade, portanto vamos desfrutar
dessa morte, vamos respirar esse eloquente silenciar.
sexta-feira, 14 de dezembro de 2012
Nas tuas andanças pela América do
Sul, um sol lhe trouxe para que andássemos a mercê desse tempo claro e vago onde,
ande, ande, ande... Ande livre com teus olhos que tudo flagram, de tudo se
alegram agradecidos e por uma quimera me enquadram na sua luz. Nas tuas andanças pela casa,
uma mística ideia lhe trouxe para que dançássemos quando morre o dia e nos vela
a lua longe, longe, longe... Onde a nossa dança ecoará pelo universo mesmo depois
do breve instante em que não haverá mais teus pés entre os meus pés.
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