segunda-feira, 20 de agosto de 2012

III


Arte bem acabada como uma colcha de retalhos, ou, quem sabe, a de um artista morto antes de escrever o final daquele que seria seu melhor romance. O artista não cegamente alimenta-se do prato de imperfeições que lhe é oferecido pela vida e vê muito mais além desses aviões que cruzam a janela da sua sala. Criticar a arte para fazer pensar a arte e também para dispensar comentários. O homem sensível é capaz de abraçar tudo que se sustenta no limite de refletir emocionando-se e emocionar-se refletindo, ou simplesmente sentir a chuva que cai do lado de fora, chovendo, deveras, do lado de dentro da sua casa.

IV

(Jura dos que ainda não se encontraram)


Alegre-se o teu coração com todo meu sofrer


Que eu também contentarei o meu com o teu


Pois os abismos e pedras colocados no caminho


Serão para cruzarmos o futuro no mesmo tempo.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Mais contradições


I

É preciso ficar atento ao fluir dessas ideias

Vá em companhia delas a uma sala angular toda espelhada
(Sem nenhuma pressa)

Caminhe com os seus pensamentos e perceba todos os enganos

II

Não acredite em máximas

Não passam de mínimas preguiçosamente pensadas

Desrespeito vil à contraditoriedade humana

Falta de caráter!


A única máxima aceitável é a do amor por todos os lados.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Reivenção


O vermelho rouco vociferou uma música violenta d´uma tempestade que reivindicava um mar de lanças e de touros. Ardia sulfúrica glande. O gozo queimava todas as chagas e fim: sem amor,  nem linguagem, apenas socos aerodinâmicos na consciência que abriram feridas deixando jorrar possibilidades.

Ele ficou chapado de vida e de contradições.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Amor andrógino

As mãos pequenas e convexas de um homem alisam os cabelos enrolados que jorram desde a nascente escondida do seu fluxo. Sob a pele áspera que cobre a silhueta feminina há algo escuso deixando meu coração de sobreaviso. A voz grave me chama como o canto de uma sereia, me envolve e me leva à execução do plano da sua dissimulação. Atrás da porta, me pressionando contra uma cômoda de moguino, no jogo certo de uma luz perigosa que não deixa clara sua beleza confusa: me domina. Urra de prazer pela madrugada, cavalga como uma ninfa e me lava os peitos com o leite da sua ambiguidade. Contraditoriamente dorme encolhido em meus braços entorpecido. É indefinido o vestígio agridoce que sai da sua pele, mesmo assim, quando está de pé: é lindo vê-lo passar.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Engavetamento

Você fica preso num engarrafamento, digerindo seu próprio caos, como se houvesse uma membrana separando a sua alma e a sua máquina do tempo do resto do mundo, te dificultando um pouco a respiração. Os que são íntimos de você estranham, mas você se resguarda, dissimula usando bem os músculos do seu rosto, você ouviu muito antes que é o melhor a fazer. Não chora mais, não pede ajuda, não esperneia. Fica ali reorganizando os seus sonhos, “ao menos faça isso” você mesmo diz. Sobram-te tão poucos sonhos, mas ainda há sonhos, uma frota imensa pronta para embarcar você. Você é um otimista. Deseja. Assobia. Vislumbra casas. Você olha pelo vidro todas as ruas e sente o desejo no peito dos transeuntes, mesmo naqueles onde não há mais nada. Você, no fundo, é um homem bom: um tolo (sorri sinceramente dentro da condução lotada). Você compreendeu a fantasia como algo de importância vital (não se sabe de onde vem esse sentimento), é uma questão moral em você, e essa prerrogativa é custosa; é necessário se fazer muito forte para não ser atropelado pelos argumentos que vem na direção contrária. Os argumentos que são os faróis das pessoas apontados para elas mesmas serão implacáveis e você fica terrivelmente constrangido vendo os seus rostos iluminados. Não te ajudam muito, e você nem mesmo quer ser ajudado. Mas você continua preso no tráfego intenso das suas horas de maré agitada quando a manhã vem. Nesses tempos, os dias são escuros como a noite, uma sombra cobre o coração das pessoas mesmo debaixo do sol mais escaldante. Você precisa dobrar tudo isso, você precisa saber disso, precisa de lucidez. Não pode mais ficar aí dentro. Você usa estratégias com a sua emoção, levanta, sai e faz seu caminho a pé. Sozinho você cruza em disparada pelos entroncamentos e coloca o seu desejo contra a via congelada que as pessoas chamam de contemporaneidade...

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Hoje eu posso dizer em paz o quanto padeci, o quanto procurei, sem querer, em todos os cantos e nas epidermes (Lembrando das suas mãos pequenas) a sua altivez, as suas carícias, suas ideias, sua obscuridade e o sorriso singelo frente ao que parecia um movimento frenético numa pulsação descompassada, e a minha calma por estar ali, tal qual uma folha que tinha a função satisfeita de ser levada pelo vento inquieto. Hoje não há pudor, nem orgulho (e nunca é tão tarde), me lembro de um horizonte lilás atrás da TV onde o mundo só era pronunciável quando havia a sua voz. Isso é o essencial... bem mais do que tudo o que eu diga. Eu sigo completo, desenhando a minha própria estrada e sei que, um dia, tive o amor de quem me ensinou a arder.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Asas de Outono

Vontade de expandir, deixar que o meu coração exploda e se espalhe em mil pedaços, como formigas com asas-de-chuva borrando de vermelho as nuvens cinzas no céu. Uma vontade de me permitir essas coisas que são total perda de tempo, pois a gente teme a morte sem glórias, mas com a morte tão iminente, a minha glória é me contorcer num movimento de dentro-e-fora a cada novo dia, alimentando-me de Deus e de tudo, tecendo as minhas asas à noite para que elas se estendam a cada amanhecer, todos os dias da minha vida. Meu coração tem vontade de se soltar, de criar asas quando a chuva molha a copa de uma folha, de flutuar em busca dessa luz que não aguarda, que raia, que queima: meu coração tem necessidades. Ele quer escorrer pelo chão e evaporar e encharcar todo o meu corpo jogado no olho de um furacão e me sufocar de amor.