quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Hoje acordei com folhas secas dançando dentro de mim.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Tachos

Um Deus com olhos engrenados,
Olhos da Laranja Mecânica
Tiranos cilhos emborcados
Feito uma boca armada até os dentes
Contra o mundo

Quero me refestelar no fundo quente
marrom-açúcar dos teus olhos.


- Como a vida pode ser impiedosamente doce!

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Maledicências nº II

Minha palavra é amor
Amor apenas
Quando cala e reverbera
Quando ataca e quando erra

Não é metálica, precisamente cirúrgica
Mas fala do eterno não dizer da alma
Aprisionada viva em sarcófago úmido
Selado a raio com símbolos de navegações
Feitos por tiranas criaturas sem olhos
Vindas do mar negro sobre corais de ouro

O vento sopra tão escasso
Que não leva o grito estanque
Mover-se é tarefa lúgubre
Ferir a superfície dura com as próprias mãos:
O único e desesperado reverso
Do corpo d´minh´alma
Contra asfixiante prisão!

Eis que na luta submersa
A alma exausta triunfa.

Por um instante celestial:
Balé de folhas abismais

(Amar é uma conversa silenciosa
Noite escura a dentro
De mãos afagando mãos)

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

O Vaso

O vaso d´água sinuoso da mulher esconde as curvas que dão nos caminhos onde apenas os mais intrépidos se arriscariam a ir. O seu coração de barro precisa ser molhado todos os dias com água límpida, pois terrivelmente secaria.

Os meninos vão-se batendo os pés na poeira. O vaso do canto da sala vai parar no centro da mesa e volta a reinar entre as cadeiras, a porcelana e a seda chinesa. No primeiro pedaço de noite: a mulher, o lustre o vaso e a mesa. Ela acende uma vela para o santo, ela faz uma prece para os seus.

Seis da manhã põe-se de pé e vai logo ali no quintal buscar margaridas e um pouco d´água na cozinha, coroa o vaso com flores e encharca o seu coração de uma nova alegria.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Quando descobri o imensurável viver
Deixei de fazer contas
Descobri que não há jogo nem regras
Eu soube me jogar, eu soube o que é o mar.
Flores num canteiro
Meninos-sol correm
Entre os eucaliptos vão-
Vem madrugada ribanceira
Ribeirão, ribeirinho, rio
De carneiros em portais

(O que há em mim
Que não simula?
E o que tem em ti
Que não esconde
De olhos apurados?)

Ao despencar da aurora
Até o fim dos dias: ardente
Nas horas amargas do ser:
Noite escura, cravo e leite

No dedo do destino
A língua do mundo
Lambe a inocência.

domingo, 2 de outubro de 2011

Desatando-nos

O corte não se faz
sem morrer de vagar
por um túnel no fim
do fim de outro túnel

É a agonia de quem correu
Não para encontrar
Mas porque encontrou
A cadência da vida

Mas agora os ponteiros foram amputados
Tornando o tempo tão palpável
Quanto a camisa que eu visto todos os dias
Sem gravatas e sem nós