Você fica preso num engarrafamento, digerindo seu próprio caos, como se houvesse uma membrana separando a sua alma e a sua máquina do tempo do resto do mundo, te dificultando um pouco a respiração. Os que são íntimos de você estranham, mas você se resguarda, dissimula usando bem os músculos do seu rosto, você ouviu muito antes que é o melhor a fazer. Não chora mais, não pede ajuda, não esperneia. Fica ali reorganizando os seus sonhos, “ao menos faça isso” você mesmo diz. Sobram-te tão poucos sonhos, mas ainda há sonhos, uma frota imensa pronta para embarcar você. Você é um otimista. Deseja. Assobia. Vislumbra casas. Você olha pelo vidro todas as ruas e sente o desejo no peito dos transeuntes, mesmo naqueles onde não há mais nada. Você, no fundo, é um homem bom: um tolo (sorri sinceramente dentro da condução lotada). Você compreendeu a fantasia como algo de importância vital (não se sabe de onde vem esse sentimento), é uma questão moral em você, e essa prerrogativa é custosa; é necessário se fazer muito forte para não ser atropelado pelos argumentos que vem na direção contrária. Os argumentos que são os faróis das pessoas apontados para elas mesmas serão implacáveis e você fica terrivelmente constrangido vendo os seus rostos iluminados. Não te ajudam muito, e você nem mesmo quer ser ajudado. Mas você continua preso no tráfego intenso das suas horas de maré agitada quando a manhã vem. Nesses tempos, os dias são escuros como a noite, uma sombra cobre o coração das pessoas mesmo debaixo do sol mais escaldante. Você precisa dobrar tudo isso, você precisa saber disso, precisa de lucidez. Não pode mais ficar aí dentro. Você usa estratégias com a sua emoção, levanta, sai e faz seu caminho a pé. Sozinho você cruza em disparada pelos entroncamentos e coloca o seu desejo contra a via congelada que as pessoas chamam de contemporaneidade...
quinta-feira, 31 de maio de 2012
quarta-feira, 23 de maio de 2012
Hoje eu posso dizer em paz o quanto padeci, o quanto procurei, sem querer, em todos os cantos e nas epidermes (Lembrando das suas mãos pequenas) a sua altivez, as suas carícias, suas ideias, sua obscuridade e o sorriso singelo frente ao que parecia um movimento frenético numa pulsação descompassada, e a minha calma por estar ali, tal qual uma folha que tinha a função satisfeita de ser levada pelo vento inquieto. Hoje não há pudor, nem orgulho (e nunca é tão tarde), me lembro de um horizonte lilás atrás da TV onde o mundo só era pronunciável quando havia a sua voz. Isso é o essencial... bem mais do que tudo o que eu diga. Eu sigo completo, desenhando a minha própria estrada e sei que, um dia, tive o amor de quem me ensinou a arder.
quinta-feira, 17 de maio de 2012
Asas de Outono
Vontade de expandir, deixar que o meu coração exploda e se espalhe em mil pedaços, como formigas com asas-de-chuva borrando de vermelho as nuvens cinzas no céu. Uma vontade de me permitir essas coisas que são total perda de tempo, pois a gente teme a morte sem glórias, mas com a morte tão iminente, a minha glória é me contorcer num movimento de dentro-e-fora a cada novo dia, alimentando-me de Deus e de tudo, tecendo as minhas asas à noite para que elas se estendam a cada amanhecer, todos os dias da minha vida. Meu coração tem vontade de se soltar, de criar asas quando a chuva molha a copa de uma folha, de flutuar em busca dessa luz que não aguarda, que raia, que queima: meu coração tem necessidades. Ele quer escorrer pelo chão e evaporar e encharcar todo o meu corpo jogado no olho de um furacão e me sufocar de amor.
segunda-feira, 7 de maio de 2012
Labirinto
Eu seguro a minha onda
Eu embalo desajeitado a minha onda
Como um pai de primeira viagem
O gosto por me perder ajuda
Como naquela vez em que fui
Sem saber endereço certo
Como naquela vida
Sempre embarcando
A dor, de tão indescritível,
Traduz-se em palavras que florescem
Numa simplicidade de jardim.
Eu embalo desajeitado a minha onda
Como um pai de primeira viagem
O gosto por me perder ajuda
Como naquela vez em que fui
Sem saber endereço certo
Como naquela vida
Sempre embarcando
A dor, de tão indescritível,
Traduz-se em palavras que florescem
Numa simplicidade de jardim.
domingo, 22 de abril de 2012
Nas inscrições da minha pele
Por trás da minha pele parda
O tempo embaixo dessa camada fosca
Um visco acoplado em células adormecidas
O universo me impõe a reorganização dos trejeitos da minha alma
Nem sempre de maneira apaziguada
Eu procuro o inusitado que rejuvenesça a minha carne apodrecida
Na minha revolta, bato a porta com força e saio no meio da noite
Quando fica humanamente difícil
Aceitar os desencadeamentos das nossas vidas
E a insuportável sensação de que nenhuma estrada
É verdadeiramente paralela à outra
Quando um raiar de dia nos faz envelhecer,
E envelhecer nada mais é do que saber-se ainda mais só,
Os sonhos começam a se dissipar, varridos por um outono atroz
À tarde, uma serpente trocando de pele na sua dança hipnótica
Aparece como uma miragem na minha janela
E uma voz sedutora repete constantemente dentro de mim:
- Substância: um sonho.
O tempo embaixo dessa camada fosca
Um visco acoplado em células adormecidas
O universo me impõe a reorganização dos trejeitos da minha alma
Nem sempre de maneira apaziguada
Eu procuro o inusitado que rejuvenesça a minha carne apodrecida
Na minha revolta, bato a porta com força e saio no meio da noite
Quando fica humanamente difícil
Aceitar os desencadeamentos das nossas vidas
E a insuportável sensação de que nenhuma estrada
É verdadeiramente paralela à outra
Quando um raiar de dia nos faz envelhecer,
E envelhecer nada mais é do que saber-se ainda mais só,
Os sonhos começam a se dissipar, varridos por um outono atroz
À tarde, uma serpente trocando de pele na sua dança hipnótica
Aparece como uma miragem na minha janela
E uma voz sedutora repete constantemente dentro de mim:
- Substância: um sonho.
quinta-feira, 19 de abril de 2012
Poema Avião
Queria compreensão e lhe ofereceram:
Insegurança
Uma briga torrida na mesa de bar:
Silêncios etílicos
Um amor místico:
Sexo apressado e corpos semivestidos
Uma amizade transcendente:
Ausência
Uma casa na França:
Sertão
O olhar mais humano em sua essência:
Pavão
Um avião como prova do meu amor:
Um Poema Avião.
Insegurança
Uma briga torrida na mesa de bar:
Silêncios etílicos
Um amor místico:
Sexo apressado e corpos semivestidos
Uma amizade transcendente:
Ausência
Uma casa na França:
Sertão
O olhar mais humano em sua essência:
Pavão
Um avião como prova do meu amor:
Um Poema Avião.
quarta-feira, 4 de abril de 2012
Fogo
Da janela do meu quarto
Munido de um microscópio
Que captura partículas
Da beleza contraditória
D´uma tempestade,
Vejo o céu em chamas
E nuvens cheias de poesia
No horizonte da minha janela
Há um raio fugaz,
O elo entre o mundo
E os meus sentidos,
Fagulha que se desfaz
Num estalido de tempo
D´ uma miragem de estrela
São tantas as janelas
Quando temos os olhos abertos
Que levam uma senhora cuidadosa
A fechar os trincos
Mas, ao convite do trovão
Eu pulo os muros da insensatez
E pouso nas asas desse tempo
Do outro lado da janela
O Vermelho metafórico queima a minha carne.
Munido de um microscópio
Que captura partículas
Da beleza contraditória
D´uma tempestade,
Vejo o céu em chamas
E nuvens cheias de poesia
No horizonte da minha janela
Há um raio fugaz,
O elo entre o mundo
E os meus sentidos,
Fagulha que se desfaz
Num estalido de tempo
D´ uma miragem de estrela
São tantas as janelas
Quando temos os olhos abertos
Que levam uma senhora cuidadosa
A fechar os trincos
Mas, ao convite do trovão
Eu pulo os muros da insensatez
E pouso nas asas desse tempo
Do outro lado da janela
O Vermelho metafórico queima a minha carne.
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