quarta-feira, 23 de maio de 2012

Hoje eu posso dizer em paz o quanto padeci, o quanto procurei, sem querer, em todos os cantos e nas epidermes (Lembrando das suas mãos pequenas) a sua altivez, as suas carícias, suas ideias, sua obscuridade e o sorriso singelo frente ao que parecia um movimento frenético numa pulsação descompassada, e a minha calma por estar ali, tal qual uma folha que tinha a função satisfeita de ser levada pelo vento inquieto. Hoje não há pudor, nem orgulho (e nunca é tão tarde), me lembro de um horizonte lilás atrás da TV onde o mundo só era pronunciável quando havia a sua voz. Isso é o essencial... bem mais do que tudo o que eu diga. Eu sigo completo, desenhando a minha própria estrada e sei que, um dia, tive o amor de quem me ensinou a arder.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Asas de Outono

Vontade de expandir, deixar que o meu coração exploda e se espalhe em mil pedaços, como formigas com asas-de-chuva borrando de vermelho as nuvens cinzas no céu. Uma vontade de me permitir essas coisas que são total perda de tempo, pois a gente teme a morte sem glórias, mas com a morte tão iminente, a minha glória é me contorcer num movimento de dentro-e-fora a cada novo dia, alimentando-me de Deus e de tudo, tecendo as minhas asas à noite para que elas se estendam a cada amanhecer, todos os dias da minha vida. Meu coração tem vontade de se soltar, de criar asas quando a chuva molha a copa de uma folha, de flutuar em busca dessa luz que não aguarda, que raia, que queima: meu coração tem necessidades. Ele quer escorrer pelo chão e evaporar e encharcar todo o meu corpo jogado no olho de um furacão e me sufocar de amor.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Labirinto

Eu seguro a minha onda
Eu embalo desajeitado a minha onda
Como um pai de primeira viagem

O gosto por me perder ajuda
Como naquela vez em que fui
Sem saber endereço certo
Como naquela vida
Sempre embarcando

A dor, de tão indescritível,
Traduz-se em palavras que florescem
Numa simplicidade de jardim.

domingo, 22 de abril de 2012

Nas inscrições da minha pele

Por trás da minha pele parda
O tempo embaixo dessa camada fosca
Um visco acoplado em células adormecidas

O universo me impõe a reorganização dos trejeitos da minha alma
Nem sempre de maneira apaziguada
Eu procuro o inusitado que rejuvenesça a minha carne apodrecida

Na minha revolta, bato a porta com força e saio no meio da noite
Quando fica humanamente difícil
Aceitar os desencadeamentos das nossas vidas 
E a insuportável sensação de que nenhuma estrada
É verdadeiramente paralela à outra

Quando um raiar de dia nos faz envelhecer,
E envelhecer nada mais é do que saber-se ainda mais só,
Os sonhos começam a se dissipar, varridos por um outono atroz

À tarde, uma serpente trocando de pele na sua dança hipnótica
Aparece como uma miragem na minha janela
E uma voz sedutora repete constantemente dentro de mim:

- Substância: um sonho.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Poema Avião

Queria compreensão e lhe ofereceram:
Insegurança

Uma briga torrida na mesa de bar:
Silêncios etílicos

Um amor místico:
Sexo apressado e corpos semivestidos

Uma amizade transcendente:
Ausência

Uma casa na França:
Sertão

O olhar mais humano em sua essência:
Pavão

Um avião como prova do meu amor:
Um Poema Avião.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Fogo

Da janela do meu quarto
Munido de um microscópio
Que captura partículas
Da beleza contraditória
D´uma tempestade,
Vejo o céu em chamas
E nuvens cheias de poesia

No horizonte da minha janela
Há um raio fugaz,
O elo entre o mundo
E os meus sentidos,
Fagulha que se desfaz
Num estalido de tempo
D´ uma miragem de estrela

São tantas as janelas
Quando temos os olhos abertos
Que levam uma senhora cuidadosa
A fechar os trincos

Mas, ao convite do trovão
Eu pulo os muros da insensatez
E pouso nas asas desse tempo

Do outro lado da janela
O Vermelho metafórico queima a minha carne.

terça-feira, 13 de março de 2012

Ar

Um pássaro negro voa leve
E pousa misterioso entre pés de girassóis
Alimenta-se de pétalas de luz
Inclina o peito na direção do azul
Semeia o tempo com grãos infinitos
Que saem da sua boca e enraízam a terra
Os ramos crescem, o vento e as chuvas levam as flores
Corroídas por explosões silenciosas dessa atmosfera ácida
Cansado das paisagens tristes que os invernos trazem
O pássaro voa distante em busca de verões
E solos férteis onde possa semear marés de flores
Em terras que só existem dentro dele mesmo.